Em entrevista, uma jovem contou que tinha uns sete anos quando foi com sua mãe ao mercadinho perto de casa. Enquanto a mãe fazia as compras, ela, menina, escondeu um doce de leite no bolso.
Na saída, sentindo-se a garota mais esperta do mundo, mostrou o doce e disse: Olha, peguei sem pagar.
O que ela recebeu de retorno foi um olhar severo. E, logo, a mãe a tomou pela mão, retornou ao mercado, fê-la devolver o que pegara e pedir desculpas.
A garota chorou demais. Sentiu-se morrer de vergonha. Entretanto, arrematou, concluindo: Isso me ensinou o valor da honestidade.
É possível que vários de nós tenhamos tido experiência semelhante. Por isso, indagamos: Quando foi que deletamos a mensagem materna? O que nos fez esquecer o ensino da infância?
A infância é o período em que o Espírito, reencarnado em nova roupagem corpórea, se apresenta maleável à reconstrução do seu eu.
É o período em que as falas dos pais têm peso porque, afinal, eles sabem tudo.
Mirar-se no exemplo dos pais é comum, considerando que, no processo de educação, os exemplos falam muito mais alto do que as palavras.
Por que, então, deixamos para trás as lições nobres? Quantos de nós, ainda, tivemos professores que iam muito além do dever e que insistiam para que fôssemos responsáveis, corretos?
Criaturas que se devotavam, ensinando com o próprio exemplo, as lições da gentileza no trato, a hombridade, o valor da palavra empenhada.
Se todos nós viemos de um lar, o que nos fez desprezar a honra, a honestidade e tantos de nós nos transformarmos em políticos corruptos, em maus profissionais, em seres que somente pensam em si mesmos?
Hora de evocar lembranças, de retornar aos anos do lar paterno e permitir-nos a reprise das lições.
Não pegue nada que não lhe pertença.
Se achar um objeto, procure o dono porque ele deve estar sentindo falta dele.
Respeite o seu semelhante, o seu espaço, a sua propriedade.
Os bens públicos são do povo e todos devem ser com eles beneficiados. A ninguém cabe tomar para si o que deve ser bem geral.
Digno é o trabalhador do seu salário.
Respeite a servidora doméstica, o carteiro, o lixeiro. São valorosos contribuintes das nossas vidas.
Lembre de agradecer com palavras e delicados mimos extemporâneos o trabalho diligente dessas mãos.
Cumprimente as pessoas. Sorria. Ceda seu lugar, no coletivo, ao idoso, ao portador de necessidades especiais, à grávida, a quem carrega pequenos nos braços.
Ceda a vez no trânsito, aguarde um segundo a mais o pedestre concluir a travessia, antes de arrancar com velocidade, somente porque o sinal abriu.
As leis são criadas para que, obedecendo-as, vivamos melhor em sociedade.
Mas gentileza não está normatizada.
Honestidade é virtude de quem respeita a si mesmo, ao outro, ao mundo.
Pensemos nisso. Façamos um retorno à infância, pelos dias dos bancos escolares, lembremos dos nossos pais, dos mestres, das suas exortações.
E refaçamos o passo. O mundo do amanhã aguarda nossa correta ação, agora, ainda hoje
Momento Espírita
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quinta-feira, 3 de março de 2016
Saudades
Muitas vezes bate uma saudade repentina e profunda de alguém que muito amamos mas que, por algum motivo, está longe de nós. O sentimento vem forte, os pensamentos se fixam na figura do ser amado e muitos momentos bons são lembrados. Você sabia que isso pode ser o pensamento dessa pessoa que, esteja onde estiver, está pensando muito em você? As barreiras e os limites que separam aqueles que se amam só são de aparência e são extremamente frágeis à força do amor. O pensamento de um chega ao outro em qualquer lugar do mundo, por mais distante que estejam fisicamente. Isso acontece porque o verdadeiro amor e o verdadeiro afeto não encontram barreiras nem se esbarram nas convenções dos limites. Se você ama alguém que está longe, e esse ser te ama também fique certa que o reencontro acontecerá e um dia, quando for permitido, viverão juntos para sempre...
Por Mauricio de Castro-escritor e médium
Por Mauricio de Castro-escritor e médium
Crônicas Espíritas
Prosseguindo com o relato da crônica anterior, descrevo algumas percepções obtidas no desdobramento do sono, percepções estas relacionadas ao obsidiado e sua família, que me chamaram atenção durante o trabalho mediúnico.
Adormeci curiosa, pois vislumbrei que a psicosfera do obsidiado continuava a mesma após o atendimento. Percebi que haviam muitos desencarnados em desequilíbrio no local, e que alguns deles teriam auxílio, mas que haviam outros muito confortáveis naquele lar.
Penso que esse tipo de situação ainda é muito frequente no nosso planeta, por isso essa crônica descreve um cotidiano árduo para o trabalho da Espiritualidade Amiga: o resgate moral da humanidade.
O ambiente naquele lar era de muita discórdia, com uma psicosfera densa, escurecida e enevoada.
A suposta vítima era um senhor no fim da meia idade, que apresentava episódios de desconforto torácico com dificuldade para respirar e aspecto geral de envelhecimento precoce.
Comportava-se como um tirano no lar, irritadiço e egoísta. Era alguém muito afeito ao mundo dos negócios e que procurava sempre tirar proveito de qualquer situação. Um materialista dissimulado e hábil na conversação, que se mostrava simpático com as pessoas de interesse fora de casa, o que o levava a ser tratado com consideração e respeito.
Ele guardava a explosão do temperamento bilioso para os empregados mais simples e a família. A esposa apresentava grande cansaço físico e mental, e procurava sempre algum motivo para estar fora do convívio com ele, que cheio de críticas negativas, a culpava por muitas coisas, desde os filhos que ela não soube criar direito à refeição que nunca o satisfazia plenamente.
Numa relação de comodidade doentia, ela dizia aos filhos que era melhor não brigar para não contrariá-lo, e se vitimava para a família. Mas no fundo tinha um certo orgulho da posição social que desfrutava, elogiando-o em público.
Às vezes orava pedindo para que o temperamento do esposo se modificasse, e outras vezes para que seu sofrimento acabasse com uma viuvez. Na calma infelicidade estava entrando num quadro depressivo importante, com várias doenças que a levavam a muitas consultas médicas, o que não lhe parecia desfavorável, pois saía de casa.
Esse Senhor repetiu, na oportunidade encarnatória, muitos dos erros do passado. Manteve o talento para os negócios, a ambição direcionada para um foco. É verdade que trabalhou muito, porém sempre com alguma vantagem ilícita embutida à custa de negociatas e maquinações. Não descansava a mente, e estava sempre a pensar em algum negócio ou em como aumentar sua renda. Até em ocasiões sociais o lazer era planejado para ser uma oportunidade de negócio.
Passava às outras pessoas uma imagem de um homem bem-sucedido e respeitável, trabalhador, honesto e até mesmo filantropo. No seu íntimo olhava a maioria das pessoas com um certo desprezo, tendo respeito apenas aos muito poderosos e ricos. Mas, o sofrimento tinha batido à sua porta com o intuito saneador.
A respiração difícil, um mal-estar e fadiga constantes o preocupavam, e observara estar com falhas na memória que atribuía ao pouco sono e de má qualidade. E era neste sono que encontrava os companheiros de outras vidas, ex-sócios e parceiros em negócios que se alimentavam dos pensamentos egoísticos, e de todos os excessos que cometia.
Estava tendo também pesadelos e acordava sufocado. Quanto ao incêndio que levou à morte de algumas pessoas, ele estava achando incomum o surgimento cada vez mais frequente dessa lembrança. Ficava irritado e dizia a si mesmo ser inocente, que foi um empurrão no destino, pois aquele lugar estava fadado a acabar, com algum outro tipo de desastre ou com um concorrente mais esperto a ver o lucro potencial. Não tinha mandado matar ninguém, foi má sorte de quem morreu, dano colateral.
Dos filhos, havia um em que apostava num futuro, segundo seus parâmetros, que o decepcionara; era um “bon-vivant”, irresponsável e egoísta. A maioria dos filhos estava a pensar na futura herança.
Mas havia uma filha que era agradecida ao que a família lhe proporcionara com boas escolas e conforto material, e lamentava que o pai, embora distante e frio com ela, estava a sofrer tanto naquela altura da vida, em que devia descansar, porém não tinha saúde.
Ela tinha sementes de fé e orava pela família, mas no seu íntimo dúvidas acerca da integridade do caráter paterno ocorriam devido ao seu comportamento dispare, em casa e no convívio social. Desconhecia que a doença física eram um pequeno reflexo da doença moral e que o sofrimento poderia ser o gatilho para uma reforma ética indispensável.
Bem, estas foram as impressões que tive e que partilho com vocês, pois sei que certamente conhecemos famílias em semelhante situação, nas mais variadas proporções.
“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Porque limpais o exterior do copo e do prato, mas por dentro estão cheios de rapina e de intemperança. Fariseu cego! Limpa primeiro o interior do copo, para que também o exterior se torne limpo. Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas por dentro estão cheios de ossos e de toda imundícia. Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e de iniquidade.”
Mateus 23.25-28
"De que valeria apresentar a fisionomia doce a Deus e um coração amargo aos companheiros do cotidiano, se todos eles são também filhos de Deus tanto quanto nós?"
Emmanuel
Muita paz para todos nós.
Francesca Freitas
23-09-2015
Leia mais: http://www.cacef.info/news/cronicas-espiritas-24/?
Adormeci curiosa, pois vislumbrei que a psicosfera do obsidiado continuava a mesma após o atendimento. Percebi que haviam muitos desencarnados em desequilíbrio no local, e que alguns deles teriam auxílio, mas que haviam outros muito confortáveis naquele lar.
Penso que esse tipo de situação ainda é muito frequente no nosso planeta, por isso essa crônica descreve um cotidiano árduo para o trabalho da Espiritualidade Amiga: o resgate moral da humanidade.
O ambiente naquele lar era de muita discórdia, com uma psicosfera densa, escurecida e enevoada.
A suposta vítima era um senhor no fim da meia idade, que apresentava episódios de desconforto torácico com dificuldade para respirar e aspecto geral de envelhecimento precoce.
Comportava-se como um tirano no lar, irritadiço e egoísta. Era alguém muito afeito ao mundo dos negócios e que procurava sempre tirar proveito de qualquer situação. Um materialista dissimulado e hábil na conversação, que se mostrava simpático com as pessoas de interesse fora de casa, o que o levava a ser tratado com consideração e respeito.
Ele guardava a explosão do temperamento bilioso para os empregados mais simples e a família. A esposa apresentava grande cansaço físico e mental, e procurava sempre algum motivo para estar fora do convívio com ele, que cheio de críticas negativas, a culpava por muitas coisas, desde os filhos que ela não soube criar direito à refeição que nunca o satisfazia plenamente.
Numa relação de comodidade doentia, ela dizia aos filhos que era melhor não brigar para não contrariá-lo, e se vitimava para a família. Mas no fundo tinha um certo orgulho da posição social que desfrutava, elogiando-o em público.
Às vezes orava pedindo para que o temperamento do esposo se modificasse, e outras vezes para que seu sofrimento acabasse com uma viuvez. Na calma infelicidade estava entrando num quadro depressivo importante, com várias doenças que a levavam a muitas consultas médicas, o que não lhe parecia desfavorável, pois saía de casa.
Esse Senhor repetiu, na oportunidade encarnatória, muitos dos erros do passado. Manteve o talento para os negócios, a ambição direcionada para um foco. É verdade que trabalhou muito, porém sempre com alguma vantagem ilícita embutida à custa de negociatas e maquinações. Não descansava a mente, e estava sempre a pensar em algum negócio ou em como aumentar sua renda. Até em ocasiões sociais o lazer era planejado para ser uma oportunidade de negócio.
Passava às outras pessoas uma imagem de um homem bem-sucedido e respeitável, trabalhador, honesto e até mesmo filantropo. No seu íntimo olhava a maioria das pessoas com um certo desprezo, tendo respeito apenas aos muito poderosos e ricos. Mas, o sofrimento tinha batido à sua porta com o intuito saneador.
A respiração difícil, um mal-estar e fadiga constantes o preocupavam, e observara estar com falhas na memória que atribuía ao pouco sono e de má qualidade. E era neste sono que encontrava os companheiros de outras vidas, ex-sócios e parceiros em negócios que se alimentavam dos pensamentos egoísticos, e de todos os excessos que cometia.
Estava tendo também pesadelos e acordava sufocado. Quanto ao incêndio que levou à morte de algumas pessoas, ele estava achando incomum o surgimento cada vez mais frequente dessa lembrança. Ficava irritado e dizia a si mesmo ser inocente, que foi um empurrão no destino, pois aquele lugar estava fadado a acabar, com algum outro tipo de desastre ou com um concorrente mais esperto a ver o lucro potencial. Não tinha mandado matar ninguém, foi má sorte de quem morreu, dano colateral.
Dos filhos, havia um em que apostava num futuro, segundo seus parâmetros, que o decepcionara; era um “bon-vivant”, irresponsável e egoísta. A maioria dos filhos estava a pensar na futura herança.
Mas havia uma filha que era agradecida ao que a família lhe proporcionara com boas escolas e conforto material, e lamentava que o pai, embora distante e frio com ela, estava a sofrer tanto naquela altura da vida, em que devia descansar, porém não tinha saúde.
Ela tinha sementes de fé e orava pela família, mas no seu íntimo dúvidas acerca da integridade do caráter paterno ocorriam devido ao seu comportamento dispare, em casa e no convívio social. Desconhecia que a doença física eram um pequeno reflexo da doença moral e que o sofrimento poderia ser o gatilho para uma reforma ética indispensável.
Bem, estas foram as impressões que tive e que partilho com vocês, pois sei que certamente conhecemos famílias em semelhante situação, nas mais variadas proporções.
“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Porque limpais o exterior do copo e do prato, mas por dentro estão cheios de rapina e de intemperança. Fariseu cego! Limpa primeiro o interior do copo, para que também o exterior se torne limpo. Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas por dentro estão cheios de ossos e de toda imundícia. Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e de iniquidade.”
Mateus 23.25-28
"De que valeria apresentar a fisionomia doce a Deus e um coração amargo aos companheiros do cotidiano, se todos eles são também filhos de Deus tanto quanto nós?"
Emmanuel
Muita paz para todos nós.
Francesca Freitas
23-09-2015
Leia mais: http://www.cacef.info/news/cronicas-espiritas-24/?
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016
Operação Talita
– Talita tem um tumor na espinha dorsal. É pequeno, mas o bastante para pressionar o feixe de nervos que passa por ali, provocando as dores intensas que a afligem.
Luiz César ouvia consternado a revelação do doutor Orestes. Possuía suficiente conhecimento para saber que se tratava de um problema sério.
– Maligno?
– Provavelmente não. De qualquer forma só saberemos com certeza após o exame anatomopatológico.
– É preciso operar?
– Sim. Quanto mais crescer, mais complicada a remoção. As dores acentuar-se-ão e ela poderá experimentar uma paralisia das pernas.
– Há riscos?
– Toda cirurgia envolve alguns, embora tenhamos progredido muito. Vamos cortar uma região delicada e não sabemos exatamente até que ponto a tumoração entranhou-se no tecido nervoso. Impossível garantir que não haverá sequelas.
– Podemos esperar alguns dias? Gostaria de preparar minha esposa adequadamente. Ela confia muito nos recursos de ajuda que podem ser mobilizados no Centro Espírita que frequentamos. Sentir-se-á mais segura.
– Está bem. Marcaremos a cirurgia para dentro de duas semanas, mesmo porque há exames preliminares.
À noite, em reunião íntima no Centro, com a presença de tarefeiros ligados aos serviços de assistência espiritual, Luiz César expôs o problema, acentuando:
– Conto com a colaboração de todos. O caso é grave, mas tenho certeza de que se unirmos nossas vibrações criaremos condições ideais para que tudo corra da melhor forma possível, considerando, naturalmente, os compromissos cármicos de minha esposa, cuja extensão desconhecemos.
Elói, um dos diretores da instituição, sempre muito objetivo e dinâmico, sugeriu:
– Vamos todos colaborar, não apenas por exercício de caridade, mas, sobretudo, como intransferível dever. Talita é uma companheira dedicada e amiga. Sugiro que não fiquemos apenas em boas intenções. Vamos compor equipes que se revezarão. Nossa irmã receberá passes magnéticos pela manhã e à noite. Onde estivermos, formaremos uma corrente de vibrações no horário em que os passistas escalados estiverem realizando o seu trabalho. Será nossa Operação Talita', mobilizando todos os servidores desta casa.
A proposta foi recebida com entusiasmo. Durante duas semanas a programação foi cumprida fielmente, envolvendo dezenas de pessoas que, de longe ou de perto, garimpavam em seu tempo minutos preciosos de participação vibratória.
Quanto à paciente, comportava-se com serenidade e confiança, favorecendo a plena assimilação dos recursos mobilizados por benfeitores encarnados e desencarnados.
Na data aprazada a nova consulta.
– Então, Talita – perguntou o médico – está preparada?
– Sim, doutor, confiante em Deus e no senhor.
– Ótimo. Faremos hoje o último exame radiológico, confirmando a posição do tumor. Operaremos no início da noite.
Algumas horas depois era feita a internação hospitalar. Já acomodados no apartamento, marido e mulher receberam a visita do doutor Orestes, que trazia o resultado das radiografias. Muito sério, perguntou:
– Afinal, Luiz César, que tipo de preparo você fez em sua esposa?
– Nada que pudesse prejudicá-la. Apenas mobilizamos recursos espirituais em seu benefício. Algum problema?
– Sim. Não podemos operar.
Luiz César sobressaltou–se:
– Aumentou o tumor?
O médico abriu-se em largo sorriso:
– Pelo contrário: regrediu! Não há mais o que operar.
Tomados de emoção, marido e mulher abraçaram-se, enquanto o doutor Orestes despedia-se a dizer, com expressão marota:
– Não sei o que fizeram. Só lhes peço que não espalhem a fórmula ou terei que fechar meu consultório.
***
Quando um grupo de pessoas dispõe-se a unir seus melhores sentimentos, vibrando em benefício de alguém, fazendo-o deforma disciplinada e perseverante, forma-se um imenso potencial de socorro, favorecendo a atuação decisiva de benfeitores espirituais. Os prodígios do Céu chegam, não raro, pela passarela da boa-vontade estendida pelos que vivem na Terra.
Luiz César ouvia consternado a revelação do doutor Orestes. Possuía suficiente conhecimento para saber que se tratava de um problema sério.
– Maligno?
– Provavelmente não. De qualquer forma só saberemos com certeza após o exame anatomopatológico.
– É preciso operar?
– Sim. Quanto mais crescer, mais complicada a remoção. As dores acentuar-se-ão e ela poderá experimentar uma paralisia das pernas.
– Há riscos?
– Toda cirurgia envolve alguns, embora tenhamos progredido muito. Vamos cortar uma região delicada e não sabemos exatamente até que ponto a tumoração entranhou-se no tecido nervoso. Impossível garantir que não haverá sequelas.
– Podemos esperar alguns dias? Gostaria de preparar minha esposa adequadamente. Ela confia muito nos recursos de ajuda que podem ser mobilizados no Centro Espírita que frequentamos. Sentir-se-á mais segura.
– Está bem. Marcaremos a cirurgia para dentro de duas semanas, mesmo porque há exames preliminares.
À noite, em reunião íntima no Centro, com a presença de tarefeiros ligados aos serviços de assistência espiritual, Luiz César expôs o problema, acentuando:
– Conto com a colaboração de todos. O caso é grave, mas tenho certeza de que se unirmos nossas vibrações criaremos condições ideais para que tudo corra da melhor forma possível, considerando, naturalmente, os compromissos cármicos de minha esposa, cuja extensão desconhecemos.
Elói, um dos diretores da instituição, sempre muito objetivo e dinâmico, sugeriu:
– Vamos todos colaborar, não apenas por exercício de caridade, mas, sobretudo, como intransferível dever. Talita é uma companheira dedicada e amiga. Sugiro que não fiquemos apenas em boas intenções. Vamos compor equipes que se revezarão. Nossa irmã receberá passes magnéticos pela manhã e à noite. Onde estivermos, formaremos uma corrente de vibrações no horário em que os passistas escalados estiverem realizando o seu trabalho. Será nossa Operação Talita', mobilizando todos os servidores desta casa.
A proposta foi recebida com entusiasmo. Durante duas semanas a programação foi cumprida fielmente, envolvendo dezenas de pessoas que, de longe ou de perto, garimpavam em seu tempo minutos preciosos de participação vibratória.
Quanto à paciente, comportava-se com serenidade e confiança, favorecendo a plena assimilação dos recursos mobilizados por benfeitores encarnados e desencarnados.
Na data aprazada a nova consulta.
– Então, Talita – perguntou o médico – está preparada?
– Sim, doutor, confiante em Deus e no senhor.
– Ótimo. Faremos hoje o último exame radiológico, confirmando a posição do tumor. Operaremos no início da noite.
Algumas horas depois era feita a internação hospitalar. Já acomodados no apartamento, marido e mulher receberam a visita do doutor Orestes, que trazia o resultado das radiografias. Muito sério, perguntou:
– Afinal, Luiz César, que tipo de preparo você fez em sua esposa?
– Nada que pudesse prejudicá-la. Apenas mobilizamos recursos espirituais em seu benefício. Algum problema?
– Sim. Não podemos operar.
Luiz César sobressaltou–se:
– Aumentou o tumor?
O médico abriu-se em largo sorriso:
– Pelo contrário: regrediu! Não há mais o que operar.
Tomados de emoção, marido e mulher abraçaram-se, enquanto o doutor Orestes despedia-se a dizer, com expressão marota:
– Não sei o que fizeram. Só lhes peço que não espalhem a fórmula ou terei que fechar meu consultório.
***
Quando um grupo de pessoas dispõe-se a unir seus melhores sentimentos, vibrando em benefício de alguém, fazendo-o deforma disciplinada e perseverante, forma-se um imenso potencial de socorro, favorecendo a atuação decisiva de benfeitores espirituais. Os prodígios do Céu chegam, não raro, pela passarela da boa-vontade estendida pelos que vivem na Terra.
Richard Simonetti
Dar de Graça
Um grupo de senhoras ofereceu a Chico Xavier maravilhoso tapete.
– Trouxemos este tapete que tecemos para você com muito carinho.
– Minhas irmãs, nem sei como agradecer-lhes tamanha generosidade. É meu mesmo? Posso guardá-lo?
– Claro. E, por favor, não dê para ninguém. É seu…
– Obrigado, queridas irmãs. Agora eu gostaria que as senhoras fizessem um grande favor, de imenso valor.
– Diga Chico. Faremos o que desejar.
– É o seguinte: fiquem com este tapete, guardando-o em sua casa, para mim…
Proverbial o desprendimento de Chico, que sempre transferia para instituições ou necessitados os presentes que recebia. Aqui, com um detalhe sugestivo: atendendo à recomendação das visitantes, que o impedia de dispor do presente, fez delas as depositárias.
Outro episódio ilustrativo envolve bem mais valioso, um automóvel novo, zero-quilômetro. No momento em que Chico o recebeu, chegava um comerciante. Imediatamente entregou-lhe o carro, pedindo que o pagasse em macarrão para ser distribuído aos carentes.
Considerado, para fins editoriais, o autor dos quatrocentos e doze livros que psicografou, Chico estaria milionário se cobrasse por eles. Nunca reivindicou um tostão. Doava os direitos autorais a instituições espíritas, ressaltando, humilde, que era mero intermediário dos verdadeiros autores, os Espíritos desencarnados.
Se Chico guardasse apenas os presentes que lhe ofereciam seria o suficiente para deixar valioso patrimônio, o que não aconteceu porque, sistematicamente, até propriedades encaminhava a instituições beneficentes e pessoas carentes.
Seguia rigorosamente a recomendação de Jesus (Mateus, 10:8): Dai de graça o que de graça recebestes.
E também a orientação de Kardec, expressa em O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo XXVI: Quem, pois, deseje comunicações sérias deve, antes de tudo, pedi-las seriamente e, em seguida, inteirar-se da natureza das simpatias do médium com os seres do mundo espiritual. Ora, a primeira condição para se granjear a benevolência dos bons Espíritos é a humildade, o devotamento, a abnegação, o mais absoluto desinteresse moral e material.
Infelizmente essas recomendações nem sempre são observadas, principalmente quando dizem respeito aos médiuns de cura, que desenvolvem atividades em favor da saúde humana, mas à distância do estudo e da reflexão sobre suas responsabilidades.
Atraem multidões, sempre dispostas a algo oferecer em dinheiro ou espécie aos seus benfeitores. A tentação é grande. Médiuns dotados de apreciáveis faculdades põem a perder seu trabalho, por se renderem ao desejo de recompensas da Terra, esquecidos de seus compromissos com o Céu.
Vivendo existência simples, sem luxos e facilidades, Chico foi um exemplo marcante para os médiuns dispostos a cumprir a sagrada tarefa, atento à recomendação de Kardec, no capítulo citado: Procure, pois, aquele que carece do que viver, recursos em qualquer parte, menos na mediunidade; não lhe consagre, se assim for preciso, senão o tempo de que materialmente possa dispor. Os Espíritos lhe levarão em conta o devotamento e os sacrifícios, ao passo que se afastam dos que esperam fazer deles uma escada por onde subam.
Richard Simonetti
richardsimonetti@uol.com.br
– Trouxemos este tapete que tecemos para você com muito carinho.
– Minhas irmãs, nem sei como agradecer-lhes tamanha generosidade. É meu mesmo? Posso guardá-lo?
– Claro. E, por favor, não dê para ninguém. É seu…
– Obrigado, queridas irmãs. Agora eu gostaria que as senhoras fizessem um grande favor, de imenso valor.
– Diga Chico. Faremos o que desejar.
– É o seguinte: fiquem com este tapete, guardando-o em sua casa, para mim…
Proverbial o desprendimento de Chico, que sempre transferia para instituições ou necessitados os presentes que recebia. Aqui, com um detalhe sugestivo: atendendo à recomendação das visitantes, que o impedia de dispor do presente, fez delas as depositárias.
Outro episódio ilustrativo envolve bem mais valioso, um automóvel novo, zero-quilômetro. No momento em que Chico o recebeu, chegava um comerciante. Imediatamente entregou-lhe o carro, pedindo que o pagasse em macarrão para ser distribuído aos carentes.
Considerado, para fins editoriais, o autor dos quatrocentos e doze livros que psicografou, Chico estaria milionário se cobrasse por eles. Nunca reivindicou um tostão. Doava os direitos autorais a instituições espíritas, ressaltando, humilde, que era mero intermediário dos verdadeiros autores, os Espíritos desencarnados.
Se Chico guardasse apenas os presentes que lhe ofereciam seria o suficiente para deixar valioso patrimônio, o que não aconteceu porque, sistematicamente, até propriedades encaminhava a instituições beneficentes e pessoas carentes.
Seguia rigorosamente a recomendação de Jesus (Mateus, 10:8): Dai de graça o que de graça recebestes.
E também a orientação de Kardec, expressa em O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo XXVI: Quem, pois, deseje comunicações sérias deve, antes de tudo, pedi-las seriamente e, em seguida, inteirar-se da natureza das simpatias do médium com os seres do mundo espiritual. Ora, a primeira condição para se granjear a benevolência dos bons Espíritos é a humildade, o devotamento, a abnegação, o mais absoluto desinteresse moral e material.
Infelizmente essas recomendações nem sempre são observadas, principalmente quando dizem respeito aos médiuns de cura, que desenvolvem atividades em favor da saúde humana, mas à distância do estudo e da reflexão sobre suas responsabilidades.
Atraem multidões, sempre dispostas a algo oferecer em dinheiro ou espécie aos seus benfeitores. A tentação é grande. Médiuns dotados de apreciáveis faculdades põem a perder seu trabalho, por se renderem ao desejo de recompensas da Terra, esquecidos de seus compromissos com o Céu.
Vivendo existência simples, sem luxos e facilidades, Chico foi um exemplo marcante para os médiuns dispostos a cumprir a sagrada tarefa, atento à recomendação de Kardec, no capítulo citado: Procure, pois, aquele que carece do que viver, recursos em qualquer parte, menos na mediunidade; não lhe consagre, se assim for preciso, senão o tempo de que materialmente possa dispor. Os Espíritos lhe levarão em conta o devotamento e os sacrifícios, ao passo que se afastam dos que esperam fazer deles uma escada por onde subam.
Richard Simonetti
richardsimonetti@uol.com.br
As Estatuetas
O diálogo, à noite, entre as duas senhoras, continuava na copa:
– Você, minha filha, deve perdoar, esquecer... Lá diz o Evangelho que costumamos ver o argueiro no olho do vizinho, sem ver a trave dentro do nosso...
– Mas, mamãe, foi um insulto! O moço parou à frente da janela, viu as minhas estatuetas e atirou a pedra!
E Dona Balbina, senhora espírita de generoso coração, prosseguia falando à filha, Dona Rogéria:
– Ele é um pobre rapaz obsediado.
– História! É uma fera solta, isto sim!
– Mas Dona Margarida, a mãe dele, foi sempre amiga...
– Isso não vem ao caso... Cada qual é responsável pelos próprios atos. A senhora sabe que ele é maior.
– Precisamos perdoar para sermos perdoados...
– Ser bom é uma coisa, e outra coisa é ser tolo! Darei queixa à polícia... Somente não queria fazê-lo sem ouvi-la; contudo, Fábio e eu estamos decididos. Meu Fábio já anda cansado do volante...
Pobre marido!... Dinheiro cavado em caminhão é duro de ganhar...
– Meu conselho, filha, é desculpar e desculpar...
– Mas o prejuízo é de dois mil cruzeiros, além da injúria!
– Mesmo assim, o perdão é o melhor remédio.
– Ah! Que será do mundo, assim, sem corrigenda, sem justiça?
Nesse instante, alguém bate à porta.
Ambas atendem.
O portador comunica:
– Um desastre! O senhor Fábio trombou uma casa e a parede caiu! Mãe e filha correm para o local, que se encontra entulhado de multidão, e veem a casa acidentada. É justamente a moradia de Dona Margarida, a mãe do rapaz que atirara a pedra. O caminhão, num lance estouvado, derribara uma parede lateral e penetrara, fundo, inutilizando todo o mobiliário da sala de refeições.
Apagara-se a luz no quarteirão e as duas, sem que ninguém as reconhecesse, podiam escutar Dona Margarida, que sustentava uma vela acesa, diante do guarda de trânsito:
– Peço-lhe – dizia ao fiscal – não abrir processo algum. Não quero reclamações.
– Mas, Dona Margarida – insistia o funcionário –, a senhora vai ter aqui um prejuízo para mais de quarenta contos!
– Não importa. Deus dará jeito. “Seu” Fábio e Dona Rogéria são meus amigos de muito tempo.
As duas senhoras, porém, não puderam continuar ouvindo, pois a voz irritada de Fábio elevou-se da multidão e era necessário socorrê-lo, porque o infeliz estava ébrio.
Hilário Silva- Do livro: O Espírito da Verdade, Médium: Francisco Cândido Xavier
– Você, minha filha, deve perdoar, esquecer... Lá diz o Evangelho que costumamos ver o argueiro no olho do vizinho, sem ver a trave dentro do nosso...
– Mas, mamãe, foi um insulto! O moço parou à frente da janela, viu as minhas estatuetas e atirou a pedra!
E Dona Balbina, senhora espírita de generoso coração, prosseguia falando à filha, Dona Rogéria:
– Ele é um pobre rapaz obsediado.
– História! É uma fera solta, isto sim!
– Mas Dona Margarida, a mãe dele, foi sempre amiga...
– Isso não vem ao caso... Cada qual é responsável pelos próprios atos. A senhora sabe que ele é maior.
– Precisamos perdoar para sermos perdoados...
– Ser bom é uma coisa, e outra coisa é ser tolo! Darei queixa à polícia... Somente não queria fazê-lo sem ouvi-la; contudo, Fábio e eu estamos decididos. Meu Fábio já anda cansado do volante...
Pobre marido!... Dinheiro cavado em caminhão é duro de ganhar...
– Meu conselho, filha, é desculpar e desculpar...
– Mas o prejuízo é de dois mil cruzeiros, além da injúria!
– Mesmo assim, o perdão é o melhor remédio.
– Ah! Que será do mundo, assim, sem corrigenda, sem justiça?
Nesse instante, alguém bate à porta.
Ambas atendem.
O portador comunica:
– Um desastre! O senhor Fábio trombou uma casa e a parede caiu! Mãe e filha correm para o local, que se encontra entulhado de multidão, e veem a casa acidentada. É justamente a moradia de Dona Margarida, a mãe do rapaz que atirara a pedra. O caminhão, num lance estouvado, derribara uma parede lateral e penetrara, fundo, inutilizando todo o mobiliário da sala de refeições.
Apagara-se a luz no quarteirão e as duas, sem que ninguém as reconhecesse, podiam escutar Dona Margarida, que sustentava uma vela acesa, diante do guarda de trânsito:
– Peço-lhe – dizia ao fiscal – não abrir processo algum. Não quero reclamações.
– Mas, Dona Margarida – insistia o funcionário –, a senhora vai ter aqui um prejuízo para mais de quarenta contos!
– Não importa. Deus dará jeito. “Seu” Fábio e Dona Rogéria são meus amigos de muito tempo.
As duas senhoras, porém, não puderam continuar ouvindo, pois a voz irritada de Fábio elevou-se da multidão e era necessário socorrê-lo, porque o infeliz estava ébrio.
Hilário Silva- Do livro: O Espírito da Verdade, Médium: Francisco Cândido Xavier
Há Um Século
Allan Kardec, o Codificador da Doutrina Espírita, naquela triste manhã de abril de 1860, estava exausto, acabrunhado.
Fazia frio.
Muito embora a consolidação da Sociedade Espírita de Paris e a promissora venda de livros, escasseava o dinheiro para a obra gigantesca que os Espíritos Superiores lhe haviam colocado nas mãos.
A pressão aumentava...
Missivas sarcásticas avolumavam-se à mesa.
Quando mais desalentado se mostrava, chega a paciente esposa, Madame Rivail – a doce Gaby –, a entregar-lhe certa encomenda, cuidadosamente apresentada.
O professor abriu o embrulho, encontrando uma carta singela.
E leu:
“Sr. Allan Kardec:
Respeitoso abraço.
Com a minha gratidão, remeto-lhe o livro anexo, bem como a sua história, rogando-lhe, antes de tudo, prosseguir em suas tarefas de esclarecimento da Humanidade, pois tenho fortes razões para isso.
Sou encadernador desde a meninice, trabalhando em grande casa desta capital. Há cerca de dois anos casei-me com aquela que se revelou minha companheira ideal. Nossa vida corria normalmente e tudo era alegria e esperança, quando, no início deste ano, de modo inesperado, minha Antoinette partiu desta vida, levada por sorrateira moléstia.
Meu desespero foi indescritível e julguei-me condenado ao desamparo extremo.
Sem confiança em Deus, sentindo as necessidades do homem do mundo e vivendo com as dúvidas aflitivas de nosso século, resolvera seguir o caminho de tantos outros, ante a fatalidade...
A prova da separação vencera-me, e eu não passava, agora, de trapo humano.
Faltava ao trabalho e meu chefe, reto e ríspido, ameaçava-me com a dispensa.
Minhas forças fugiam.
Namorara diversas vezes o Sena e acabei planeando o suicídio.
“Seria fácil, não sei nadar” – pensava.
Sucediam-se noites de insônia e dias de angústia. Em madrugada fria, quando as preocupações e o desânimo me dominaram mais fortemente, busquei a Ponte Marie. Olhei em torno, contemplando a corrente... E, ao fixar a mão direita para atirar-me, toquei um objeto algo molhado que se deslocou da amurada, caindo-me aos pés.
Surpreendido, distingui um livro que o orvalho umedecera. Tomei o volume nas mãos e, procurando a luz mortiça de poste vizinho, pude ler, logo no frontispício, entre irritado e curioso:
“Esta obra salvou-me a vida. Leia-a com atenção e tenha bom proveito. – A. Laurent.”
Estupefato, li a obra O LIVRO DOS ESPÍRITOS, ao qual acrescentei breve mensagem, volume esse que passo às suas mãos abnegadas, autorizando o distinto amigo a fazer dele o que lhe aprouver.”
Ainda constavam da mensagem agradecimentos finais, a assinatura, a data e o endereço do remetente.
O Codificador desempacotou, então, um exemplar de O LIVRO DOS ESPÍRITOS ricamente encadernado, em cuja capa viu as iniciais do seu pseudônimo e na página do frontispício, levemente manchada, leu com emoção não somente a observação a que o missivista se referira, mas também outra, em letra firme:
“Salvou-me também. Deus abençoe as almas que cooperaram em sua publicação. – Joseph Perrier.”
Após a leitura da carta providencial, o Professor Rivail experimentou nova luz a banhá-lo por dentro...
Conchegando o livro ao peito, raciocinava, não mais em termos de desânimo ou sofrimento, mas sim na pauta de radiosa esperança.
Era preciso continuar, desculpar as injúrias, abraçar o sacrifício e desconhecer as pedradas...
Diante de seu espírito turbilhonava o mundo necessitado de renovação e consolo.
Allan Kardec levantou-se da velha poltrona, abriu a janela à sua frente, contemplando a via pública, onde passavam operários e mulheres do povo, crianças e velhinhos...
O notável obreiro da Grande Revelação respirou a longos haustos e, antes de retomar a caneta para o serviço costumeiro, levou o lenço aos olhos e limpou uma lágrima...
Hilário Silva - Do livro: O Espírito da Verdade, Médiuns: Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira.
Fazia frio.
Muito embora a consolidação da Sociedade Espírita de Paris e a promissora venda de livros, escasseava o dinheiro para a obra gigantesca que os Espíritos Superiores lhe haviam colocado nas mãos.
A pressão aumentava...
Missivas sarcásticas avolumavam-se à mesa.
Quando mais desalentado se mostrava, chega a paciente esposa, Madame Rivail – a doce Gaby –, a entregar-lhe certa encomenda, cuidadosamente apresentada.
O professor abriu o embrulho, encontrando uma carta singela.
E leu:
“Sr. Allan Kardec:
Respeitoso abraço.
Com a minha gratidão, remeto-lhe o livro anexo, bem como a sua história, rogando-lhe, antes de tudo, prosseguir em suas tarefas de esclarecimento da Humanidade, pois tenho fortes razões para isso.
Sou encadernador desde a meninice, trabalhando em grande casa desta capital. Há cerca de dois anos casei-me com aquela que se revelou minha companheira ideal. Nossa vida corria normalmente e tudo era alegria e esperança, quando, no início deste ano, de modo inesperado, minha Antoinette partiu desta vida, levada por sorrateira moléstia.
Meu desespero foi indescritível e julguei-me condenado ao desamparo extremo.
Sem confiança em Deus, sentindo as necessidades do homem do mundo e vivendo com as dúvidas aflitivas de nosso século, resolvera seguir o caminho de tantos outros, ante a fatalidade...
A prova da separação vencera-me, e eu não passava, agora, de trapo humano.
Faltava ao trabalho e meu chefe, reto e ríspido, ameaçava-me com a dispensa.
Minhas forças fugiam.
Namorara diversas vezes o Sena e acabei planeando o suicídio.
“Seria fácil, não sei nadar” – pensava.
Sucediam-se noites de insônia e dias de angústia. Em madrugada fria, quando as preocupações e o desânimo me dominaram mais fortemente, busquei a Ponte Marie. Olhei em torno, contemplando a corrente... E, ao fixar a mão direita para atirar-me, toquei um objeto algo molhado que se deslocou da amurada, caindo-me aos pés.
Surpreendido, distingui um livro que o orvalho umedecera. Tomei o volume nas mãos e, procurando a luz mortiça de poste vizinho, pude ler, logo no frontispício, entre irritado e curioso:
“Esta obra salvou-me a vida. Leia-a com atenção e tenha bom proveito. – A. Laurent.”
Estupefato, li a obra O LIVRO DOS ESPÍRITOS, ao qual acrescentei breve mensagem, volume esse que passo às suas mãos abnegadas, autorizando o distinto amigo a fazer dele o que lhe aprouver.”
Ainda constavam da mensagem agradecimentos finais, a assinatura, a data e o endereço do remetente.
O Codificador desempacotou, então, um exemplar de O LIVRO DOS ESPÍRITOS ricamente encadernado, em cuja capa viu as iniciais do seu pseudônimo e na página do frontispício, levemente manchada, leu com emoção não somente a observação a que o missivista se referira, mas também outra, em letra firme:
“Salvou-me também. Deus abençoe as almas que cooperaram em sua publicação. – Joseph Perrier.”
Após a leitura da carta providencial, o Professor Rivail experimentou nova luz a banhá-lo por dentro...
Conchegando o livro ao peito, raciocinava, não mais em termos de desânimo ou sofrimento, mas sim na pauta de radiosa esperança.
Era preciso continuar, desculpar as injúrias, abraçar o sacrifício e desconhecer as pedradas...
Diante de seu espírito turbilhonava o mundo necessitado de renovação e consolo.
Allan Kardec levantou-se da velha poltrona, abriu a janela à sua frente, contemplando a via pública, onde passavam operários e mulheres do povo, crianças e velhinhos...
O notável obreiro da Grande Revelação respirou a longos haustos e, antes de retomar a caneta para o serviço costumeiro, levou o lenço aos olhos e limpou uma lágrima...
Hilário Silva - Do livro: O Espírito da Verdade, Médiuns: Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira.
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